Confesso que me senti extremamente honrado em ter recebido a crítica do blog apologético “Bereianos”. Já fui leitor do blog e acredito que vocês possuem muito conhecimento para compartilharem.

Primeiramente gostaria de dizer que enquanto eu escrevi o texto “Dez coisas que você jamais poderia votar a favor enquanto segue a Jesus.” jamais tive o objetivo de formar um artigo bem estruturado e bem escrito, até porque não estava com o tempo necessário para isso. Escrevi com o objetivo de publicar um texto opinativo, simples, objetivo e sem entrar muito em questões teológicas. O texto obteve uma grande popularidade, a qual eu não esperava. Obteve críticas negativas e positivas de todos os lados e críticas construtivas e bem argumentadas são bem recebidas desde que haja respeito mútuo pelas tradições religiosas e pessoa humana.

Li o texto que vocês escreveram e posso dizer-vos que é um ótimo artigo mas que também desaprovo os adjetivos ofensivos que vocês utilizaram para me definir, por exemplo, como “canalha”, “energúmeno” e outros. Mas se essa é a melhor forma que vocês utilizam para transparecer a imagem de Cristo em vossas vidas, não posso eu esperar nada mais do que isso.

  • -Definição de Evangelho Social.

A definição que vocês dão para o movimento”Evangelho Social” é superficial, tendencioso e mentiroso. Ao contrário do que vocês disseram, nosso movimento não encara a missão da igreja como “realizar ações sociais” e sim buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua Justiça (Mateus 6:33), portanto clamamos como é dito na oração que Nosso Senhor nos ensinou “Venha teu Reino…” (Mateus 6:10). Acreditamos que nós como cristãos, temos a missão de buscarmos a instauração progressiva, ativa e contínua do Reino de Deus na Terra.“Nós não somos só intérpretes do futuro, mas já os colaboradores do futuro, cuja força, na esperança como na realização, é Deus”(MONDIN, 1980, p. 196). Esperarmos a volta do Senhor como os crentes de Tessalônica, é não viver o evangelho de forma completa, pois somos embaixadores a serviço do evangelho (Aos Efésios 6:20).

Trabalhar para o estabelecimento do Reino de Deus e sua justiça na Terra, também significa trabalhar pelo estabelecimento de fatores e realidades que compreendem o Reino de Deus. O Reino de Deus não é suportado em um espaço em que haja discriminação racial entre as diversas e inúmeras criaturas de Deus. O Reino de Deus não é suportado em locais que mulheres apanham de seus maridos e são encaradas como seres “inferiores” a homens, sendo que em Cristo não há diferença entre homens e mulheres (Aos Gálatas 3:28). O Reino de Deus não é suportado em locais em que hajam grande desigualdade social, numa sociedade em que uma minoria goza de altos privilégios, desperdiça comida, vive em luxo encima de uma maioria pobre que não tem o que comer (Amós 6:4-6). O Reino de Deus não é estabelecido onde há guerra, onde há fome, onde há pobreza, onde há violência, onde há crianças e pessoas adultas sendo escravizadas, onde há discriminação de qualquer natureza que seja, onde o “amar ao próximo como a ti mesmo” não é manifesto. O movimento do “evangelho social” não é limitar a missão da igreja em “realizar ações sociais” e sim lutar subversivamente contra o sistema de coisas (mundo) que alimenta todas as realidades que são contrárias ao Reino de Deus.Entendemos também que a simples realização de “ações sociais” não subvertem o sistema, mas sim também a voz profética e ativa da igreja na sociedade que denunciam as injustiças sociais e as estruturas injustas da sociedade e que convida toda a humanidade para a reconciliação dos homens com Deus e com seus irmãos. (2° Carta aos Coríntios 5:18-19)

Nos acreditamos no verdadeiro jejum que é repartir a comida com os famintos, receber os desabrigados, dar roupa para os que não tem, socorrer os necessitados e oprimidos e lutar contra todo o tipo de exploração  e violência (Isaías 58:6-9). Portanto, a realização de ações sociais é uma das coisas que acreditamos ser a missão do cristão engajado. Acreditamos que trabalhar pelo estabelecimento do Reino de Deus compreende lutar contra as desigualdades, prática do evangelismo, viver o evangelho em nossas vidas, amar a Deus e amar ao próximo e promover a subversão desse sistema diabólico, excludente, assassino e individualista sem qualquer semelhança com a natureza do reino. Diferente do que vocês falaram, minha igreja não virou uma ONG, nem mesmo está quase virando uma … mas prefiro que digam que nossas igrejas estejam virando ONGs do que ouvir que estamos virando vendilhões do evangelho que roubam dos mais pobres em nome de um deus, ou até mesmo que somos um bando de fariseus.

  • Leis anti-LGBT’s

Primeiramente ao contrário do que vocês escreveram, o objetivo do texto não foi “tentar coadunar a posição cristã com as leis pró-LGBT” e sim mostrar que a posição cristã não condiz com a defesa de leis anti-LGBT’s. Leis anti-LGBT’s podem representar um imenso grupo de leis, desde leis que afirmem a pena de morte para LGBT’s até leis que proíbam o casamento entre pessoas de mesmo gênero. Defender direitos iguais a todas as pessoas independente de sua raça, cor, gênero, religião ou orientação sexual é antes de tudo ser justo e defender a justiça.

O que é comum entre conservadores é  a confusão que realizam quando discutimos leis e direitos de pessoas LGBT’s. Não conseguem fazer uma separação entre assuntos “homossexualidade ser pecado ou não” e “direitos de pessoas homossexuais”. Não entrei no mérito de discutir se uma pessoa homossexual peca ou não, pelo fato de viver sua sexualidade livremente como qualquer outra pessoa heterossexual. As escrituras nos dizem que “todos pecaram …” (Aos Romanos 3:23) portanto é irrelevante o fato LGBT’s estarem ou não em pecado, uma vez que o assunto é  “direitos iguais e justiça”.

  • Filiação divina

Pessoas assim não conhecem nem entendem;

andam vagando às escuras.

Eu disse: Vocês são divindades;

e todos vocês são filhos e filhas do Altíssimo. (Salmos 82:5-6)

Uma das críticas que recebi no texto foi por ter me referido aos LGBT’s como filhas e filhos de Deus . Entendo porém que há um significado teológico profundo na palavra “filho de Deus” embora no nosso dia-a-dia utilizamos a expressão de forma superficial para  toda a humanidade com uma família universal, ou seja o termo é geralmente utilizado para designar toda a criação de Deus. Segunda a teologia paulina, a  filiação divina entretanto, é obtida através da justificação pela fé na qual deixamos de sermos “escravos do pecado” para sermos “filhos e filhas de Deus” (Aos Romanos 8:14; Aos Gálatas 4:7)

Outros textos nas próprias escrituras fazem uma releitura diferente do que seria chamado de “filhos de Deus”. Um exemplo disso é  quando Jesus atribui o título de “filhos de Deus” para os pacificadores (Mateus 5:9) o que não tem muito a ver com a doutrina paulina da adoção. No Salmos 82: está escrito “Vocês são ignorantes,não entendem nada; Vocês vivem na escuridão.As bases da lei e da ordem na terra estão abaladas. Eu disse: ‘Vocês são deuses;todos vocês são filhos do Deus Altíssimo”. Neste caso, o Asafe chama pessoas perdidas, que andam na escuridão, ignorantes, que provavelmente são poderosos governantes de filhos e filhas de Deus. Se formos levar ao pé da letra o significado da expressão “filho de Deus” no sentido da doutrina da adoção, não é ao todo errado aplicar o termo para pessoas LGBT’s  já que “Não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus ( Aos Romanos 3:23)Todos nós, sejamos pessoas heterossexuais ou homossexuais, somos justificados tão-somente pela graça de Deus e pela fé que o Espírito Santo em nós opera. Antes de olharmos para alguém para julga-lo por sua raça, cor, religião, orientação sexual, identidade de gênero ou algum outro fator secundário, amemos como Jesus nos ordenou e olhemos para todos como criatura amada de Deus.

Continuarei o nosso diálogo se assim o puder.

“Quão formoso são, sobre os montes, os pés daqueles que anunciam a paz …” (Isaías 52:7)

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