voto

A palavra “cristão” vem do grego e significa “pequeno cristo”. Ser um “pequeno Cristo” é o que os cristãos geralmente exprimem por “seguir a Cristo”. Entretanto, seguir ao Cristo Bíblico, implica certas atitudes e motivações.

Por algum motivo, a hegemonia cristã brasileira tem tomado certos tipos de atitudes intolerantes, de modo que o termo “cristão” não seja mais associado a qualquer coisas que faça alusão ao comportamento de Jesus Cristo no livro sagrado cristão. Estas são completamente escancaradas no âmbito político, onde cristãos e latifundiários se unem contra os direitos das massas populares e grupos discriminados de nossa sociedade.

Por isso, decidi escrever este texto para refletirmos sobre coisas que cristãos não deveriam apoiar, já que afirmam seguir a Jesus.

1- Leis anti-LGBT’s.

Pergunte a si mesmo: “A quem Jesus discriminou?”.

Enquanto pensa na resposta, tenha em mente que enquanto os fariseus encorajavam a discriminação de mulheres, cobradores de impostos, pobres e samaritanos (que eram odiados pelos judeus por serem impuros racialmente), Jesus escolheu acompanhar e incluir radicalmente a todos estes grupos. Cristo nunca fez defendeu discriminações, mesmo quando a lei (que era sagrada para os judeus) o fizesse.  Pelo contrário, Cristo nos encorajou a amar nossos irmãos e irmãs, como nós amamos nossas próprias vidas. Ao vermos uma pessoa LGBT ou heterossexual, precisamos enxergar uma pessoa, respeita-la e defender a dignidade humana em toda sua plenitude. Num viés cristão, todas as pessoas foram criadas por Deus, e toda sua criação é perfeita, em suas diferenças, diversidade, dificuldades. O conceito de “Graça”, muito presente na teologia e nas cartas paulinas, nos ensina que Cristo nunca exigiu que as pessoas mudassem o que são para serem aceitas por Deus, mas pelo contrário, Deus as escolheu e por isso as amou como são. Esta reflexão tem causado profundas mudanças em muitas igrejas protestantes tradicionais e com certeza, num futuro não muito distante, toda a sociedade será livre a ponto de ver beleza na diversidade, diversidade na igualdade e justiça sobre todas as coisas.

Cristo agiu assim, agora cabe a nós seguirmos seus passos. (1 Pedro 2:21)

“Mas, pela sua graça e sem exigir nada, Deus aceita todas  as pessoas, por meio de Cristo Jesus, que as salva.” (Romanos 3:24)

2- Leis anti-imigrantes e anti-refugiados.

O cristianismo, judaísmo e o islamismo possui uma herança judia. Ambas as religiões possuem como patriarcas, Abraão e Sara. Mas além de uma herança judaica, temos uma profunda herança forasteira (estrangeira).

Nossos antepassados espirituais foram guiados por Deus, para deixar tudo o que tinham para trás e viajar, na esperança de encontrarem um lugar onde pudessem viverem melhor. Moisés levou os hebreus do Egito para o deserto e depois para outras terras (onde já haviam habitantes). Até Jesus, passou parte de sua infância como estrangeiro e inclusive, Jesus foi um refugiado político.

Como está descrito no livro de Êxodos, nossos pais espirituais sabiam o que eram ser forasteiros em terras estrangeiras. Nossa fé e ancestralidade espiritual surgiu como forasteira. Caso tenha dúvidas em como é “sermos estrangeiros em terra estrangeira”, faça uma breve reflexão de quem eram nativos das terras Brasileiras (e como eles são tratados pelos latifundiários e pela sociedade em geral), ou então aos nossos avós e bisavós que vieram de outros países, eles saberão te responder com toda certeza.

Na melhor das hipóteses, ser cristão e votar a favor de políticas contra refugiados nos torna hipócritas; na pior das hipóteses nos torna traidores de nossos antepassados e de nosso Deus.

“Que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa. Por isso amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito.” Deuteronômio 10.18-19

3-Politicas que vulnerabilizam os mais pobres à fome

Uma certa vez, um homem sábio chamado Gandhi disse que existem pessoas no mundo com tanta fome, que Deus não poderia aparecer para elas, exceto na forma de pão.

A fome é denunciada na bíblia pelos profetas e livros poéticos como algo grave para a sociedade. Uma sociedade atacada pela fome, terá problemas com a educação, produção e comportamento civil: todos estes, fatores determinantes para uma sociedade bem sucedida.

A pessoa que quer seguir a Cristo, precisa ter em mente que Jesus disse que quando alimentamos os mais necessitados, estamos ofertando a Deus. Portanto, é uma contradição extremamente alarmante, que a bancada que se auto-afirma evangélica, seja contrária às políticas de redução da fome e da pobreza.

Ai de vocês que gostam de banquetes, em que se deitam em sofás luxuosos e comem carne de ovelhas e de bezerros gordos! Vocês fazem músicas como fez o rei Davi e gostam de cantá-las com acompanhamento de harpasBebem vinho em taças enormes, usam os perfumes mais caros, mas não se importam com a desgraça do país.” (Amós 6:4-6)

4-Politicas que fazem opção pelos mais ricos ao invés dos mais pobres.

Políticos cristãos ou apenas civis, que fazem opção pelos mais ricos sempre desferem um golpe na face de Cristo, negando sua vida, seu ministério e todo seu ensinamento.  Amós, Isaías e outros profetas, igualmente denunciavam o comportamento dos ricos que se esbanjavam em riqueza advindas de exploração, enquanto os pobres passavam por fome e nudez.

Num viés “cristiano” (que poderá ser diferente do cristão convencional) é abominável quando somos omissos ou até contribuímos para que pobres sejam explorados por ricos. Entretanto, terrivelmente pior é a criação de leis que estimulam e protejam este comportamento. O Estado burguês-latifundiário justifica essa forma de exploração e um verdadeiro seguidor de Cristo, deve sempre romper com o status-quo, promovendo justiça e igualdade acima de toda política que vulnerabilize os vulneráveis e eternize a exploração e opressão.

Isso fica claramente irônico, quando temos impresso “Deus seja louvado” em nosso dinheiro.

“Deus levanta a sua mão poderosa
e derrota os orgulhosos
com todos os planos deles.
Derruba dos seus tronos reis poderosos
e põe os humildes em altas posições.
Dá fartura aos que têm fome
e manda os ricos embora
com as mãos vazias.” (S. Lucas 1:51-53 – NTLH)

5- Defesa de guerras, ditaduras e torturas. 

Cristo é chamado de “Príncipe da Paz” e isso está diretamente a natureza do seu ministério e aos seus objetivos. Entretanto, Jesus também afirmou a seguinte frase  “Eu não vim para trazer paz, mas espada”, evidenciando que seu objetivo imediato era contraposição com as autoridades da época (que no caso eram religiosas), afim de mostrar um caminho totalmente novo aos judeus.  Este caminho era fundamentado na busca pela construção de um “reino”, ou de uma sociedade totalmente oposta às desilusões de nosso atual sistema. Através de Jesus,  entendemos que antes de encontrarmos a paz, haveríamos de enfrentar vários conflitos por objetivos justos, que por vezes seriam processos transformadores, que exigiriam dor antes de trazer o progresso que buscamos. Ele e seus discípulos, por exemplo, pregavam a mansidão e a paz, embora seus discursos fossem de natureza acusativa e denunciativa; eles foram mortos cruelmente.

Existe uma razão para as escrituras afirmarem que “Deus é amor” e o nosso desafio como cristãos é viver como ele,  ser como ele. Ditaduras e censuras com certeza fogem deste princípio. Somos desafiados e desafiadas por Cristo, a buscarmos o seu Reino e a sua Justiça. Se entendemos que este reino era descrito por Cristo como uma sociedade onde não haveria fome,  guerra,  perseguição ou preconceito, buscar seu Reino e justiça implica a buscar o fim de todas essas coisas.

No final o amor vence!

 

“Quão formosos são sobre os montes os pés dos que anunciam a paz.” (Isaías 52:7)

 

6- Limitar o acesso gratuito a saúde.

Como seguidores de Cristo, devemos seguir também seus passos (cf. 1° Pedro 2:21). Isso significa que devemos imita-lo o máximo possível que conseguirmos. Jesus também afirma que somos capazes de fazermos obras maiores do que as que ele realizou na terra (João 14:12).

Sabemos que o estado não consegue repetir os milagres de Jesus, mas a medicina moderna consegue chegar bem próximo, prevenindo doenças e erradicando epidemias. Há uma pesquisa norte-americana que afirma que de 45000 pessoas que morrem nos EUA, 20000 morrem por falta de acesso a saúde.

Nós cristãos falamos muito sobre a “salvação”. Mas ignoramos que muitas pessoas verdadeiramente seriam salvas no mundo através do acesso gratuito a saúde, principalmente aquelas sem condições financeiras.

7- Desvalorização da educação/limitar o acesso gratuito e de qualidade para todos.

Nós aprendemos em Provérbios, assim como em outros livros sapienciais, de que a sabedoria é algo que Deus se deleita noite e dia. A Sabedoria é por Deus tão valorizada, que algumas linhas teológicas costumam interpretá-la como a face feminina de Deus (Sophia). Segundo as escrituras, melhor é a Sabedoria do que o ouro (cf. Provérbios 8:11)

Em nossos dias, principalmente no Brasil, vemos como a educação pública sofre de maus índices. Os professores, que são os ministradores do conhecimento e sabedoria, são desvalorizados e muitas vezes desrespeitados pelo governo. As escolas públicas de nosso país possuem sérios problemas com infra-estrutura e falta de recursos. Não se investe em educação o quanto é necessário e o rendimento ainda é baixo. Infelizmente se “deliciar em sabedoria” é algo que a classe governante não idealiza. A educação é um fator importantíssimo para o desenvolvimento do país e o seu acesso deve ser destinado a todos (independente de sua nacionalidade, cor, gênero, ou classe social). Limitar o acesso a educação é privar alguns de um direito essencial para a vida em sociedade. Se a educação é o meio pelo qual podemos atingir nossa libertação, a falta dela é um projeto das classes dominantes.

Para seguirmos a Jesus, devemos tornar a educação uma prioridade, afinal de contas ele era um Rabi (mestre).

8-Pena de morte 

Jesus Cristo morreu por pena de morte.

Jesus foi condenado a execução pois era visto como uma ameaça ao sistema econômico e teocrata da época, um agitador que estava desestabilizando a ordem pública. O crime de Jesus apontado pelo sinédrio, foi subversão. (Lucas 22:2)

Jesus era inocente. Sua figura carismática e seu movimento profético (denunciativo, subversivo e revolucionário) irritava as autoridades conservadoras e fundamentalistas da época. Todos os anos, pessoas inocentes morrem por execução, seja realizada pelo Estado e pautada em ordenamentos jurídicos (em outros países), seja indiretamente feita pelo Estado, através de seu aparelho de repressão ou por “justiceiros” (como acontece no Brasil). Não há nenhuma prova de que a punição extrema e desumana da pena de morte reduza ou combata a criminalidade. Outro fato importante é que a pena de morte é discriminatória, sendo aplicada desproporcionalmente contra pobres, minorias, alguns grupos étnicos e raciais, grupos religiosos e etc.

Deus sabe quando neste país os prisioneiros são massacrados sem compaixão.
Deus Altíssimo sabe quando são desrespeitados os direitos humanos,
que ele mesmo nos deu” (Lamentações 3:34-35)

 

9- Obrigar pessoas a seguirem seus (particulares) princípios morais. 

Uma das coisas mais marcantes na personalidade de Cristo, foi sua mansidão. Cristo respeitava a liberdade dos outros, pois uma das consequências do amor é a liberdade. Se há coerção, não há amor e, por consequência, não há liberdade.

Se você ama outra pessoa, irás permitir que ela trilhe seu próprio caminho, faça suas decisões e mantenha suas particularidade . Cristo era o “Príncipe da Paz” mas estava longe de ser um rei terrestre, com um governo físico. O mais importante é notar que Cristo não era um ditador.

Impor sua religião pessoal, crenças ou princípios morais/religiosos sobre outras pessoas, não tem nenhuma ligação com a maneira que Cristo praticou sua fé e seus ensinamentos. Se você impõe sua fé sobre outros, apoia a oração obrigatória do Pai Nosso em escolas e ambientes públicos, persegue adeptos das religiões afro-brasileiras ou desrespeita seus signos religiosos, você pode ser um Cristão, mas jamais será um “pequeno Cristo”.

 “Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade.” (2 Coríntios 2:17)

10- Jair Bolsonaro.

Ver 1-9.

 

 

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