Big-Bang

Por que ponderar sobre os avanços científicos e a fé?

Um dos temas que mais causam dúvidas entre as pessoas que procuram uma religião, que estão conhecendo o cristianismo ou atravessam uma crise de fé ao ver um aparente confronto entre fé e religião, é a origem do universo e de nós mesmos. Para estes motivos existem hoje, tentativas de teólogos, pastores, padres e sacerdotes em geral, de tentarem harmonizar fé e religião para evitar o descrédito da parte do público geral. Entretanto, será que  os avanços e descobertas científicas realmente justificam o descrédito no evangelho? ou então, será que o questionamento, reformulação, afirmação ou reafirmação de conceitos, dogmas e doutrinas são fatores que “enfraquecem” ou devem enfraquecer a fé?

Gênesis, o relato bíblico da criação.

O livro bíblico nas escrituras, que relata a história bíblica da criação, é o Livro de Gênesis ,que no hebraico é Bereshit (No princípio). No livro de Gênesis, podemos encontrar dois relatos da criação. O primeiro relato está no capítulo 1:1-31 2:1-3 e o segundo relato está no capítulo 2:4-25, ambos os relatos são independentes entre si e retratam focos e contextos diferentes sendo possivelmente escritos em épocas diferentes.

No primeiro relato Deus cria os céus e Terra e “A terra era um vazio, sem nenhum ser vivente, e estava coberta por um mar profundo. A escuridão cobria o mar, e o Espírito de Deus se movia por cima da água” (Gênesis 1:2 – NTLH). Nosso planeta é criado em total caos e escuridão, existia águas onde toda a biosfera encontrava-se imergida. A partir deste cenário caótico e indefinido, a narrativa genesiana revela como Deus cria e organiza a terra. É interessante notar que nesta narrativa, a criação do universo se confunde com a própria  criação da Terra, a luz surge anteriormente à fonte primária da origem da luz terrestre e a narrativa não aborda outras fontes de luz presente no universo que não sejam o sol, pois o texto fala especificamente de dois luzeiros, aparentemente colocando o Sol e a Lua em mesmo patamar de “fontes de luz”. A partir daí, ocorre a criação dos seres vivos finalizando no sexto dia com a criação da humanidade. Outro ponto interessante a ser notado é que nesta primeira narrativa, não há alusão a um casal sendo criado no inicio de tudo, mas sim da humanidade sendo criada no sexto dia e a seguinte ordem ” Sejam fecundos , multipliquem-se, encham a terra e a submetam …” (Gn 1:28a- Edição Pastoral) é dada no plural para toda a humanidade.

No segundo relato, a bíblia diz que no dia em que a Terra foi criada, não havia nenhum arbusto ou erva sobre ela, pois ainda não havia chovido (cf. Gn 2:4-5). Javé modela o homem com o pó da terra, soprando em suas narinas o fôlego da vida, tornado o homem finalmente um ser vivente. Javé também planta na terra um jardim chamado Éden, colocando Adão (o primeiro homem) neste local. Em ambos os relatos pode-se perceber a responsabilidade do homem ante a criação em ser guardião, cultiva-la e preserva-la com responsabilidade. Pouco depois, Deus submete Adão a um sono profundo, quando é criada Eva, a mulher de Adão, a partir de uma de suas costelas.

Origem e composição dos relatos bíblicos de Gênesis.

É importante levar em consideração que Gênesis não pretende ser apenas um relato da criação do universo, da terra e da humanidade. Gênesis e o pentateuco na realidade são uma reconstrução da história do povo de Israel, portanto qualquer análise deve ser feita levando em consideração que o foco e objetivo do(s) autor(es) não era descrever a origem do universo e sim descrever a história de uma nação, partindo da primeira fonte e princípio: Deus.

O que vejo nestes dois relatos é que a “verdade” não está nos detalhes, mas na função que estas narrativas exerciam na vida dos povos que as narram. Estudos sobre as origens do mundo em outras culturas e contextos religiosos nos mostram que a narrativa de Gênesis foi provavelmente uma releitura da mitologia assírio-babilônica, provavelmente feitas pelas redações exílicas e pós-exílicas do Livro de Gênesis.

Em um destes mitos, podemos citar a Epopeia de Atrahasis que é um poema mitológico sumério que narra a criação e o dilúvio universal, sendo um dos mitos de criação mais antigos do Oriente Médio. Neste relato, os deuses decidem criar o homem. Então Enki (divindade das águas) aconselha que um deus fosse sacrificado e com seus sangue os demais deuses fossem purificados. Mami, a deusa-mãe, misturaria a carne e o sangue do deus sacrificado com argila, tendo assim deus e homem formado uma só carne e um só espírito, realizando então a criação do gênero humano.

Em outro mito sumério, o dilúvio é encontrado no Épico de Ziusudra onde há o aviso divino da destruição de toda a humanidade.Com este aviso, Ziusudra constrói uma embarcação para navegar sobre as águas. Além deste, há também um dilúvio causado por chuvas na Epopeia de Atrahasis, já citado anteriormente. Mas as coincidências mais impressionantes são  sobre a criação e teologia mosaica e o mito cananeu de Ugarit.

O Deus supremo da mitologia cananeia se chamava El, casado com a deusa Aserá, era o pai de toda a humanidade e de todas as criaturas que viviam sobre a terra. O Nome de El foi encontrado no topo de lista de deuses antigos na Biblioteca real de Ebla, no sítio arqueológico de Tell Mardikh na Síria datado de 2300 aC, sendo este mais um indício de sua soberania sobre outros deuses e deusas. O El cananeu é um ancião muito sábio, vivendo no alto de uma montanha ou monte. Um dos nomes ao Deus bíblico no pentateuco curiosamente é El, possuindo diversas com semelhanças com o deus El de Ugarit. A bíblia também chama Iahweh de El-Shaday ( Deus da montanha/das planícies/do monte) podendo ser uma referência ao Monte Sinai. A interpretação moderna para El-Shaday é “Deus Todo-Poderoso”.

Considerando estes e outros fatos, podemos propor que o Livro de Gênesis foi escrito e remontado gradativamente, por diversos autores sob a tradição oral e escrita das tribos, clãs e famílias independentes e autônomas. Após séculos, essas tradições orais e escritas foram agrupadas  e integradas como a história de um só povo, sendo que alguns teólogos fixam a conclusão destas releituras, edições e ampliações somente após o exílio, quando Judá é reconstituída. Algumas evidências deste longo processo, são as duplicações e contradições que encontramos no Livro de Gênesis: As duas narrativas da criação; duas genealogia (com diferenças) de Sem ( 10:21-25 e 11:10-17); Duas narrativas do dilúvio combinadas com diferenças entre si em de 6:5 ao 9:17; duas narrativas da aliança entre Deus e Abraão (caps. 15 e 17); duas narrativas acerca da expulsão de Agar (caps. 16 e 21); duas histórias sobre a nomeação de Isaque; duas histórias acerca da nomeação de Jacó; e possivelmente duas histórias combinadas sobre José entre os capítulos 37 e 50. As duplicações não param em Gênesis, mas continuam também em todo pentateuco.

De um lado temos a hipótese do Livro de Gênesis, e também todo o Pentateuco, ter sido uma compilação de textos e histórias escrita por vários autores, em épocas diferentes e distantes, unindo tradição oral e escrita numa tentativa de remontar a história do povo de Israel finalizada numa época tardia (pós exílica). Em algum momento da história, as deusas e deuses cananeus, cada um com um atributo específico, foram fusionados na figura de El e com isso se revela a identidade de Iahweh o único Deus verdadeiro dos hebreus. Algo mais curioso é que ninguém sabe a origem do nome Iahweh (Jeová, Javé). Segundo as escrituras sagradas, Iahweh apenas revelou seu nome aos israelitas, quando Moisés foi escolhido para ser o profeta libertador de Israel da opressão egípcia. O nome Iahweh não tem origem em nenhuma divindade cananeia, exatamente como atestam as escrituras sagradas. De um ponto de vista espiritual, a diferenciação de Iahweh/El/Elohin para o El de Ugarit e outros deuses e deusas surge logo no início da história de Israel quando Javé se revela como um Deus justo que defende um povo oprimido, sendo escravizado por um outro povo ao passo que as outras divindades legitimavam os poderes monárquicos e realezas que cometiam estas injustiças. Provavelmente esta fusão de deuses e deusas, compilações, adições, reinterpretações foram feitas na época do Rei Josias, quando foi estabelecidas e compiladas as escrituras hebraicas, sendo este tempo chamado pelos historiadores de reforma deuteronômica.

A outra hipótese é que os textos foram escritos unicamente (ou em sua grande maioria) por Moisés por meio da tradição oral e/ou revelação direta da parte divina. Teólogos cristãos e judeus  que utilizam a análise literária moderna da Bíblia, rejeitam a autoria mosaica do pentateuco.

Implicações do criacionismo e as releituras modernas.

Se a partir das novas análises literárias do pentateuco, considerarmos o relato de Gênesis como alegorias da tradição oral/escrita, podemos reformular aspectos da criação do mundo na visão cristã tradicional. Não se trata de querer estabelecer o criacionismo como uma vertente teológica equivocada, mas sim, de fazer uma releitura dos relatos da criação reconsiderando as novas descobertas que a ciência nos trás.

Segundo o criacionismo, o relato de Gênesis é literal e descreve com precisão (mas talvez não com totalidade) a criação do universo e da Terra. No criacionismo, a Terra teria uma idade muito jovem, por volta de 7000 anos de idade. Para a ciência, essa idade para a terra é absurdamente equivocada. Segundo a ciência, nosso universo possui uma idade de aproximadamente  14,000 bilhões de anos e a Terra teria aproximadamente 4,54 bilhões de anos.  A datação científica da terra é baseada em testes radiométricos e são consistentes com as idades das amostras mais antigas de solos terrestres e lunares.

Em uma releitura cristã moderna podemos destacar alguns pontos :

  • Gênesis, o Pentateuco e todas as escrituras, não são e não pretendem serem livros científicos/históricos. As escrituras sagradas são testemunhos espirituais e livros religiosos, que procurar conduzir o homem a verdadeira,única, eterna e encarnada Palavra de Deus/Logos divino: Jesus Cristo, Nosso Senhor. (João 1:1-3)
  • O Pentateuco reconstrói a história do povo de Israel a partir de mitos e releituras de tradições mitológicas, mas com uma verdade implícita em sua composição final: Tudo provem de Deus(2º Aos Coríntios  5:18-19). Essas construções modificaram ao decorrer do tempo a compressão da identidade de Deus (El/Elohin), ao passo que quanto mais o tempo passava, a identidade de Deus se afastava do El tribal e ugarítico. As escrituras nos atestam de que apenas em Cristo tivemos a revelação completa da identidade e natureza do Pai Universal, o Deus altíssimo. Em Cristo, temos o auge da revelação da identidade de Deus, desprendido de toda influência arcaica, patriarcal ou outras composições culturais (João 1:18).
  • A natureza alegórica de Gênesis (e talvez do pentateuco em geral) não fere sua canonicidade. O estilo alegórico, pseudo-epígrafes e mitos eram comuns na literatura antiga. Cristo se utilizou das alegorias para ensinar grandes verdades do evangelho e é possível de que boa parte das escrituras seja composta de alegorias.
  • Num ponto de vista cristão e moderno das releituras das narrativas da criação, a teoria da evolução assim como outras teorias que possam surgir (e que não sustentem o criacionismo), não são em nada contradizentes com o evangelho. Se houve Big Bang, sua fonte primária e planejamento vieram de Deus.
  • O Evangelho relevado por Cristo, não se centraliza nos relatos da criação; nas leis cerimoniais; bem como não se centraliza nos costumes, cultura e antigo sistema religioso judaico pois Jesus rompe com todos estes. A mensagem do evangelho se centraliza e se resume na revelação de Deus , O Pai Universal revelado na encarnação da Palavra (João 14:8-9); na reconciliação universal da humanidade, e de todas as coisas com o Pai, através de Cristo ( 2° Aos Coríntios 5:18, Colossenses 1:20); na filiação divina da humanidade e na irmandade universal de todos os homens, implícitos nos dois mandamentos dados por Jesus: Amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a ti mesmo (S. Marcos 12:30-31).

Portanto, o estudo, a análise crítica, as reformulações ou reafirmações, os avanços científicos não devem nos enfraquecer na fé e na permanência do evangelho de Nosso Senhor. Porém a igreja não deve ser uma instituição engessada e conservadora, mas deve apoiar o estudo e os avanços científicos que procuram melhorar as condições da sociedade. A comunidade de cristãos deve estar sempre pronta e apta para o diálogo, para o debate, para o estudo e para aceitação de opiniões e correntes teológicas diferentes, visto que somos um grupo diverso de pessoas. Seja qual for sua posição teológica, se crê na evolução ou no criacionismo, saiba sempre que o evangelho é superior em importância espiritual e centralidade do que tais coisas.

Sola Caritas

 

 

 

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