Uma definição de feminismo

Uma das maiores discussões nas religiões, e o cristianismo não foge disso, é o papel da mulher na sociedade, seus direitos e seu status. Nos tempos modernos o feminismo tem alcançado um espaço muito grande na sociedade, e sua influência tem alcançado as igrejas, grupos de jovens, grupos de discussões, convenções eclesiásticas e também tem feito muitos líderes repensarem sobre as questões acerca da mulher. Mas afinal, o que é feminismo? uma mulher que professa o cristianismo e segue os ensinamentos de Jesus, pode ser feminista? O feminismo entra em contradição com os ensinamentos de Jesus?

mary-magdalene-clings-to-jesus

O feminismo é um movimento social, filosófico e político que luta pela igualdade social das mulheres, bem como pela equidade de direitos, luta contra a opressão sofrida pelas mulheres na sociedade e a busca pelo empoderamento feminino. O feminismo modificou fortemente elementos da sociedade ocidental, que vão desde o direito à cultura. O feminismo lutou pelos direitos legais da mulher: direito ao contrato, direito a propriedade, direito a voto e etc; a luta do feminismo também pelo direito de autonomia feminina e integridade  de seu corpo, direitos reprodutivos (contracepção, cuidados pré-natais de qualidade e etc), pela proteção de mulheres e garotas contra a violência doméstica, assédio e abuso sexual, estupro, direitos trabalhistas (como licença-maternidade, salários iguais e etc), bem como a luta contra o fim de todas as discriminações. Mulheres, homens, negros, brancos, amarelos , vermelhos, pessoas portadoras de necessidades especiais, são todos grupos compostos por pessoas diferentes, com situações de vida diferentes, com condições biológicas diferentes. Entretanto, essas diferenças biológicas, ou em relação ao gênero, não justificam a desigualdade social, muito menos a diminuição e privação de direitos, e é justamente neste sentido que o feminismo atua: mulheres e homens podem (nem sempre) não serem iguais biologicamente, o gênero feminino e o gênero masculino são gêneros diferentes, mas todas as pessoas independente de suas condições biológicas, ou de seu gênero, devem receber igualdade social, igualdade de direitos e possuir sua dignidade preservada. Se você é mulher, possui direitos trabalhistas, tem a liberdade de casar ou não casar com alguém, pode votar e exercer sua vida política, bem como outros direitos, sinta-se feliz em saber que foram as feministas que lutaram para que tudo isso hoje em dia fosse possível e preservado.

Entendendo o feminismo sob a ótica do evangelho.

“Disse-lhe, pois, a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? (porque os judeus não se comunicam com os samaritanos)

Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.”

(Evangelho de São João 4:9-10)

Jesus em uma de suas viagens evangelísticas precisa voltar para a Galileia e no meio do caminho decide passar pela região da Samaria. Sua decisão , no contexto histórico, poderia ser considerada como insana,  já que os judeus e os samaritanos possuíam péssimas relações entre si, e tendo ele outras opções de caminho para voltar ao seu destino. O povo samaritano era muito hostilizado pelos judeus, sofriam um grave racismo por aqueles que eram proclamados como “filhos de Deus”.  A sociedade judaica era essencialmente machista e patriarcal. O preconceito era tão grande que os judeus homens (principalmente os fariseus) todos os dias ao acordar tinham o costume de agradecer a Deus por não serem mulheres e por não serem samaritanos.

Era meio dia, horário de almoço, um horário impróprio para se buscar água numa região desértica por fazer muito calor, as mulheres não tinham o costume de buscar água nesse horário. Provavelmente esta mulher estava lá por um motivo mais sério, é possível que essa mulher possuía algum problema com sua comunidade vivendo excluída de sua sociedade. Jesus chega ao poço e a vê e diz “Por favor, me dê um pouco de água.” (São João 4:7). Em nossos dias um homem pedir água num ambiente quente ou em condição de sede seria normal, mas naquela sociedade era tão anormal que assustou a mulher samaritana. No momento em que ele pede água ele quebra o primeiro preconceito : “A proibição de falar com uma mulher ou seja o machismo judaico”. O segundo grande dilema que Cristo quebra neste momento é o dele pedir água do mesmo copo que o dela, o que o tornaria amaldiçoado ou imundo(na cultura judaica da época), impossibilitando-o de prestar cultos a Deus por 40 dias . O terceiro grande dilema que Cristo quebra é o racismo ao conversar sobre espiritualidade e pedir água a uma samaritana.

Tendo em vista todo este contexto, entendemos a admiração da própria mulher samaritana em ver um homem judeu se comunicando com ela. Mas isso ainda não é a única coisa interessante que podemos notar neste acontecimento. Na cultura judaica se o homem “enjoasse” de sua mulher ou encontrasse nela algo que não o agradasse, ele poderia escrever uma carta de divórcio, mandando ela embora de casa, assim ela iria poder casar com outro homem (Deuteronômio 24:1-2). Mas alguns homens não divorciavam, alguns casavam com várias mulheres e não se preocupavam com o divórcio, na prática a mulher era rejeitada pelo marido porém segundo a  lei  ela não possuía o direito de casar com outro homem, porque mesmo rejeitada, ela ainda estava ligada a ele. As mulheres que sofriam esse tipo de “pena” eram chamadas de “REPUDIADAS”, sendo rebaixadas ao status de meras propriedades, escravas, que seriam utilizadas em caso de necessidade.

“Então a mulher pediu:
— Por favor, me dê dessa água [a água da vida]! Assim eu nunca mais terei sede e não precisarei mais vir aqui buscar água.
— Vá chamar o seu marido e volte aqui! — ordenou Jesus.
— Eu não tenho marido! — respondeu a mulher.
Então Jesus disse:
— Você está certa ao dizer que não tem marido, pois já teve cinco, e este que você tem agora não é, de fato, seu marido. Sim, você falou a verdade.
A mulher respondeu:
— Agora eu sei que o senhor é um profeta!”
(Evangelho de São João 4:15-19)

Fazendo uma exegese do texto, podemos perceber que a mulher teve 5 maridos e 4 destes deram-lhe carta de divórcio, o último dos cinco maridos a repudiou (não assinou carta de divórcio e se juntou a outra mulher). Segundo a lei (tanto samaritana como judaica) a mulher samaritana sendo uma repudiada não poderia casar novamente, mesmo assim a samaritana se une a um sexto homem (que judicialmente não é o seu marido). Mas olhando mais profundamente esta parte do texto, podemos perceber o quanto a mulher samaritana deveria ser uma pessoa extraordinária, uma mulher que atraiu cinco homens a serem seus maridos? A causa dos sucessivos divórcios muito provavelmente não foram causados por algum “desvio de moral” da samaritana, porque se a causa fosse esta, a mulher samaritana não casaria pela segunda vez, muito menos casaria por cinco vezes. Se lermos o texto bíblico completo vamos perceber que a mulher samaritana tem uma personalidade forte para aquela época, ela tem opinião formada, ela questiona teologicamente o homem judeu com que ela falava (Jesus). Uma mulher daquela época questionar teologicamente um homem, ou simplesmente ter uma opinião formada seria uma ofensa gravíssima para um homem. Esta mulher samaritana carrega em si uma história de casamentos consecutivos, causados pela atração que despertava nas pessoas, e ao mesmo tempo um fardo de rejeição profunda, por ser mulher, por ser repudiada, por ser samaritana, por estar em uma camada da sociedade que não deveria ser informada sobre política ou religião. Ela ousa discutir com um homem desconhecido assuntos que era considerados “de importância demais” para ser discutido com uma mulher.

 

Vejo na mulher Samaritana uma espécie de “pioneira da libertação feminina”.  Vejo também em muitas feministas sufragistas  do século passado (muitas delas cristãs) a figura da mulher samaritana, sem direitos, sem voz, mas que ousaramm a argumentar, ousam questionar quando o sistema patriarcal dá ordens para ficar calada, o que ainda não mudou muito nos dias de hoje.

Frances_Willard

Frances Willard ( 1839-1898)- Cristã, feminista e sufragista. Líder da Woman’s Christian Temperance Union.

“Nisto chegaram os discípulos, e ficaram admirados por estar ele a conversar com uma mulher(…)” (Evangelho de São João 4:27)

Mais uma vez os discípulos demonstram com sua admiração ao fato do Senhor estar conversando com uma mulher, o patriarcalismo daquela sociedade onde o evangelho foi pregado por Cristo. Mas Jesus evidentemente não concorda com o sistema patriarcal e quebra todos estes dilemas em sua vida e em seus ensinamentos. Muitas mulheres seguiam a Cristo, talvez a mais singular delas seria a Apóstola Maria Madalena. Maria Madalena era uma das pessoas mais devotas de Cristo enquanto este ainda estava na terra, sendo  ela era umas dos setenta e dois apóstolos e apóstolas de Cristo, a primeira pessoa a quem Jesus apareceu depois de ressurreto segundo a Bíblia .[“Os doze” são os mais conhecidos doze apóstolos de Jesus, ” Os setenta” no cristianismo oriental ou “Os setenta e dois” que são mencionados no Evangelho de São Lucas, são os outros apóstolos e apóstolas que Cristo instituiu posteriormente. Dos Setenta e dois apóstolos e apóstolas, podemos destacar Maria Madalena; João Marcos, o escritor do “evangelho de S. Marcos”;  Lucas ” o médico” escrito do “Evangelho de São Lucas”; Timóteo o bispo de Éfeso; Tiago , O irmão sanguíneo de Jesus , escritor da “Carta de São Tiago” e bispo de Jerusalém; Barnabé e outras mulheres como Priscíla (uma das pessoas que possivelmente escreveu a ” Carta aos Hebreus”e grande missionária do evangelho em Roma) e Júnia (citada em Romanos 16:7)]

“Saudações a Andrônico e à irmã Júnia, meus patrícios judeus, que estiveram comigo na prisão. Eles são apóstolos bem conhecidos e se tornaram cristãos antes de mim” (Aos Romanos 16:7)

Embora entre “Os doze” não haviam mulheres, é incontestável que entre “Os setenta” existissem mulheres devotas de Jesus Cristo. Também é incontestável de que Jesus as respeitava, quebrando todo o conceito machista e arcaico da sociedade daquela sociedade, colocando num nível social e de respeito, dignidade e valor iguais aos homens. É assustador ver como a “RELIGIÃO DE JESUS” pregava a igualdade e condenava a opressão e como a “A RELIGIÃO SOBRE JESUS” dos dias de hoje, muitas vezes prega o machismo, a diminuição da mulher. Em muitas igrejas as mulheres são proibidas de pregar, de serem pastoras/bispas ou diaconisas. Mas a verdade é que o verdadeiro evangelho de Cristo é o amor de Deus sobre todas as pessoas , independente do seu gênero. Cristo agiu corajosamente contra o preconceito racial na conversa com a mulher samaritana e na parábola do Bom Samaritano, e também agiu contra o machismo no episódio da samaritana e da mulher adúltera (que em outra oportunidade pretendo abordar). O Espírito da verdade convoca a igreja a se posicionar profeticamente contra o machismo, contra a desigualdade, contra a violência e contra o preconceito. Nos convoca para agirmos profeticamente na sociedade contra o sistema que objetifica sexualmente as mulheres como meras propriedades ou consumo sexual. Nos convoca para agirmos contra qualquer tipo de racismo, intolerância, fundamentalismo ou violência. O evangelho nos chama a proclamar o Reino, O amor universal do Pai Universal,  a irmandade de todos os homens e a proclamação da mensagem de Cristo o Príncipe da Paz.

“Deste modo não existe diferença entre Judeus e gregos, entre escravos e livres, entre homens e mulheres: todos vocês são iguais em Cristo Jesus” (Aos Gálatas 3:28)

Concluindo, oro e milito para que a desigualdade social seja erradicada do mundo. Oro em interseção por todas as mulheres que sofrem machismo e violência doméstica. Oro e milito para que este mundo seja um dia um mundo de justiça e paz, como o Reino que Cristo pregava. Oro para que o machismo e o preconceito nas igrejas e instituições religiosas seja totalmente substituído pelo amor Ágape . Oro a Deus, Mãe de Sabedoria e Pai de amor, para que nos de sempre o combustível para agir profeticamente na sociedade contra os males deste mundo.Amém

Em Cristo.

 

 

 

Anúncios